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Cultura

Quilombo mantém tradição centenária, símbolo da resistência negra

A segunda-feira (29) marca mais um ano em que moradores do Quilombo Urbano Mineiro Pau, localizado em Santa Cruz, zona oeste do Rio de Janeiro, se reúnem, a partir das 17h, em torno de uma fogueira. A tradição começou há mais de 150 anos com Manoel Caetano Madeira, homem negro, nascido escravizado em 1841, no município de Paraíba do Sul, na divisa com o estado de Minas Gerais, cujos padroeiros eram São Pedro e São Paulo. Notícias relacionadas: CineOP transforma Ouro Preto em capital da memória

Fonte: Alana Gandra - Repórter da Agência Brasil28 de junho de 2026 às 13:150 visualizações
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Quilombo mantém tradição centenária, símbolo da resistência negra
Foto: Agência Brasil
A segunda-feira (29) marca mais um ano em que moradores do Quilombo Urbano Mineiro Pau, localizado em Santa Cruz, zona oeste do Rio de Janeiro, se reúnem, a partir das 17h, em torno de uma fogueira.

A tradição começou há mais de 150 anos com Manoel Caetano Madeira, homem negro, nascido escravizado em 1841, no município de Paraíba do Sul, na divisa com o estado de Minas Gerais, cujos padroeiros eram São Pedro e São Paulo.

No sincretismo religioso, o dia de São Pedro é tido como Orixá Xangô. Mas Manoel, como escravo, não podia manifestar crenças da população negra. Viveu até os 41 anos sob o regime da escravidão, mas nunca deixou de acender a fogueira no dia 29 de junho.

“Quando ele começa a dar uma visão maior a essa fogueira, ele a chama de fogueira de São Pedro e São Paulo. Só que, intrinsecamente, ele está acendendo uma fogueira para Xangô e fazendo os seus fundamentos”, disse à Agência Brasil o bisneto de Manoel, Fausto Manoel Madeira Neto, que hoje é quem mantém a tradição

A fogueira permitia fortalecer vínculos comunitários, transmitir conhecimentos ancestrais e proteger identidades coletivas. Ao seu redor circulavam histórias, ensinamentos, afetos e formas de resistência que ajudaram gerações a manter vivas suas referências culturais.

Rio de Janeiro (RJ), 25/06/2026 – Quilombo mantém tradição centenária, símbolo da resistência negra 
Foto: Ratão Diniz/Quilombo Mineiro Pau
Quilombo mantém tradição centenária, símbolo da resistência negra. Foto: Ratão Diniz/Quilombo Mineiro Pau

Por essa razão, a Fogueira de Xangô não representa apenas uma tradição familiar, mas constitui um patrimônio vivo, uma estratégia de preservação da memória, afirmação da ancestralidade e continuidade cultural que manteve viva a chama da resistência negra.

Manoel trabalhou em fazendas de café e teve 36 filhos com quatro mulheres. E todos moravam com ele. O último tio-avô vivo foi encontrado em Vassouras, cidade do centro-sul do estado.

Ressignificação

Quando Manoel morreu, aos 105 anos, em 1946, seu filho Fausto Manoel Madeira mudou-se para o bairro de Santa Cruz, no Rio de Janeiro, onde passou a dar continuidade à tradição, fazendo a fogueira, ano após ano. Fausto Manoel Madeira entrou na umbanda e reencontrou o pai de santo ao qual Manoel o dera como presente, em Vassouras. Esse ato é semelhante ao batismo e significa consagrar uma criança à proteção de um Orixá ou guia espiritual.

Essa fogueira ganha então uma ressignificação. Quando o filho de Manoel Caetano morre, em 1988, a fogueira continua sendo acesa no quintal da casa até que Fausto Madeira Neto entrou na umbanda e deu prosseguimento à tradição. “E passei a acender essa fogueira até hoje”.

Atualmente, a fogueira é promovida pelo Terreiro de Umbanda São Pedro e São Paulo - Kabiúna do Sertão e a Obra Social Filhos da Razão e Justiça (OSFRJ), coordenados por Fausto Neto.

“Na verdade, essa fogueira é o fundamento do nosso terreiro”. Ele herdou do avô a entidade, o nome, a macumba. “Foi a maior e mais bela herança que ele me deixou: a responsabilidade de dar continuidade ao trabalho dele.”

Festa

Desde o tempo do avô, sempre houve uma festa muito grande em torno da fogueira. Depois que ele morreu, os descendentes trouxeram a fogueira para o terreiro, quando Fausto Manoel Madeira Neto assumiu todo o processo de responsabilidade.

“É uma festa muito grande. As pessoas amam. O pessoal fica aguardando. É uma festa muito esperada, um acontecimento. As crianças no quilombo ficam loucas; já estão montando bandeirinhas e reverenciam Xangô e os santos São Pedro e São Paulo”.

Segundo Fausto Neto, trata-se de uma questão de pertencimento mesmo. “A gente vive em uma comunidade majoritariamente preta; nós somos um terreiro. E a gente faz um trabalho voltado justamente para o fortalecimento da cultura antirracista, da educação, do trabalho social”. A partir do terreiro, são feitas e distribuídas 140 refeições diariamente, de segunda-feira a sábado, como marca da solidariedade existente no quilombo.

Para as crianças, tem ações educativas e a Dança do Mineiro Pau, que elas curtem e que é o nome da comunidade onde moram. Essa é uma dança folclórica e afro-brasileira, onde os participantes dançam em pares ou círculos batendo bastões de madeira ao ritmo da música. “Eu dancei o Mineiro Pau há 40 anos e a gente trouxe de volta. As crianças fazem sucesso dançando o Mineiro Pau”.

A tradição do acendimento da fogueira deixa claro que, ao longo dos anos, a chama que um dia iluminou uma família passou a iluminar toda uma comunidade. Para Fausto Manoel Madeira Neto, o encontro do dia 29 de junho é a celebração da memória, da ancestralidade, da cultura popular e da capacidade que o povo negro teve de transformar resistência em legado.

Fausto Neto tem três filhos – Pedro, Aline e Júlia – e pretende continuar acendendo a fogueira do bisavô “por mais 500 anos”, passando a tradição para seus filhos. “E os que vierem depois. Eles precisam ter essa responsabilidade e entender o que é essa fogueira. É uma tradição familiar que precisa ser passada para a frente. Ela não pode morrer”.

Programação

O Festejo Junino do Quilombo Mineiro Pau começará às 17h do dia 29. A entrada é gratuita.

A programação conta com apresentações da Dança do Mineiro Pau, jongo, música popular, comidas típicas, atividades para crianças, celebração da ancestralidade e o tradicional acendimento da fogueira que há mais de um século reúne gerações em torno da mesma chama. (Alana Gandra)

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